Um novo lar (de novo)

“Os órfãos Baudelaire olharam através da janela suja do trem e contemplaram o negrume melancólico da Floresta Finita, pensando se algum dia a vida deles melhoraria. Um alto-falante que chiava muito acabara de anunciar que em poucos minutos chegariam à cidade de Paltryville, onde morava a pessoa que cuidaria deles dali por diante. Não puderam evitar de pensar quem seria capaz de querer viver num lugar perdido, sombrio e fantasmagórico como aquele. Violet, que tinha catorze anos e era a Baudelaire mais velha, olhou para as árvores da floresta, árvores tão altas e praticamente sem nenhum galho que pareciam mais canos de ferro do que árvores. Violet era uma inventora – estava sempre com o pensamento tomado por máquinas e engenhocas, sobretudo quando prendia o cabelo com uma fita para ajudá-la a pensar. Naquele momento, ao olhar para as árvores, começou a bolar um mecanismo que permitisse subir ao topo de qualquer árvore, ainda que inteiramente sem galhos como aquelas. Klaus, de doze anos, tinha os olhos voltados para o chão da floresta, que era todo coberto por um musgo marrom que crescera de forma desigual.Klaus gostava muito de ler, mais do que qualquer outra coisa, e tentou se lembrar do que já havia lido sobre os musgos de Paltryville, e se algum deles era comestível. E Sunny, que era apenas um bebê, olhava para o céu cor de fuligem que pairava sobre a floresta como um pulôver úmido. Sunny tinha quatro dentes afiados, e o seu maior prazer era morder coisas, qualquer coisa, daí sua atenção voltar-se para descobrir o que havia na área para ser mordido. Mas, embora Violet começasse a planejar sua invenção, e Klaus refletisse sobre sua pesquisa de musgos, e Sunny abrisse e fechasse a boca exercitando-se para uma oportunidade de morder, a Floresta Finita pareceu-lhes tão pouco inspiradora que não conseguiram evitar a dúvida: o novo seria lar seria agradável?”

Trecho do livro Serraria baixo-astral (The miserable mill), da série Desventuras em Série (A Series of Unfortunate Events), de Lemony Snicket. Editora Cia. das Letras.

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